ARTE CONTEMPORÂNEA NA ESCOLA: PROPOSTAS DE ARTE EFÊMERA:
A partir da visitação à ArtRio, da qual não coloquei para a turma nenhum "pré-requisito", os alunos foram instigados a pesquisar mais sobre arte contemporânea e alguns de seus conceitos. E das pesquisas, fui colocando para a turma diversas questões para que os alunos refletissem, como, por exemplo, a questão da efemeridade da vida e de todas as coisas. A arte contemporânea costuma trabalhar muito esse conceito, mesmo que no fim das contas, os registros que são feitos das obras, tenham um caráter diferente (não-efêmero?) do proposto. Sim, porque os artistas e demais pessoas ligadas às artes (ou não... às vezes, apenas "visitantes", espectadores) realizam diversos registros (fotos, filmes etc.) que fazem a obra (per)durar para além do tempo a que se propunha.
"Vírgula no Infinito", de Gabriela Gusmão (MAM-RJ): "A mostra é composta de projeções de vídeos silenciosos, cada um com uma hora de duração, e aborda temas como sociedade contemporânea e tempo. A proposta é buscar o limite da percepção através dos vídeos, que possuem variações de luz e de movimento".(8)
Deixei livre a escolha do tema (da questão), diferente de alguns outros trabalhos de arte efêmera já realizados na escola em anos anteriores, como, por exemplo, "Como era gostosa minha obra: arte devorada", de 2005, trabalho de arte comestível - Eat-art - que questionava os maus hábitos alimentares do mundo contemporâneo, incentivando a uma alimentação mais saudável -; ou "Arte pela Sustentabilidade: Intervenção na fachada da escola", de 2007, intervenção artística na fachada da escola no dia da Feira Integrada como finalização da proposta sobre consumo consciente de energia, trabalhada nos anos de 2006/2007; ou "'Sticker Art': Fragmentos da História: João Cândido e a Revolta da Chibata", de 2008, uma intervenção com stickers (reprodução de trabalhos dos alunos sobre a "Revolta da Chibata" impressos em papel etiqueta), na parede de uma escola de um bairro vizinho; ou "Scrap Arte Mario Piragibe", de 2008´-2009, proposta inspirada na "Mail-art" usando uma rede social muito em moda - e a favorita de meus alunos - na época (estabelecemos eixos temáticos para compartilharmos: identidade, meio ambiente...); ou "Experiência com arte ambiental", de 2010, uma intervenção dos alunos nos jardins da escola - etc. Nos exemplos acima (cliquem nos títulos), já havia uma questão pré-determinada e os alunos eram instigados a preparar propostas que a bem "resolvesse". No trabalho atual (2011), a questão ficou a escolha de cada grupo de alunos. O que foi "pré-determinado" é que se colocasse claramente a (co)relação da questão da proposta com a efemeridade; a pertinência da correlação ideia/conceito com a estética visual da obra.
O trabalho JARDIM DOS SENTIMENTOS mistura flores naturais e artificiais: fala sobre a efemeridade da vida e sobre os sentimentos verdadeiros e falsos.
Fragmento de texto do projeto dos alunos:
"A proposta do trabalho é demonstrar que na natureza, assim como na vida, tudo tem seu tempo, sua hora e seus limites, de nascer, viver e morrer. As flores são como os sentimentos que crescem pouco a pouco como a virtude do tempo. Há pessoas de vida e sentimentos verdadeiros e falsos, assim também são as flores. Se a gente não cuidar das flores de verdade, elas morrem, se não cuidarmos dos sentimentos verdadeiros, eles morrem, e só permanece o que é artificial."
Minha avaliação:
Os alunos montaram o trabalho num tabuleiro, mas poderíamos ter montado (tipo instalação) no chão, ou num "caminho"... A ideia é legal, contemporânea, e dentro da proposta que eu coloquei para esta turma - projetar e realizar um trabalho de arte efêmera! Se não estivéssemos em semana de provas, poderíamos (re)montar o ambiente/instalação outro dia, mas precisaríamos de muitas e muitas flores, "reais" e "artificiais", seria preciso, também, mais engajamento... Se ocupássemos um espaço coletivo da escola (parte do pátio, dos jardins, das escadarias etc.) para deixar o trabalho exposto por uns dias, presenciaríamos, então, as flores naturais irem murchando, até só restarem as artificiais...
A CASA DE DOCES DOS SONHOS é uma casa lúdica e comestível feita de balas e doces, para ser partilhada ao final da exposição.

Fragmento de texto do projeto das alunas:
"A proposta da Casa de Doces dos Sonhos é a de fazer todos relembrarem os tempos de criança, da infância, em que se sonhava ter uma casa de doces para se deliciar quando escutavam ou liam a fábula de João e Maria. Com nossa Casa de Doces, queremos que todos voltem aos tempos de infância, para se divertirem, saboreando as gostosuras da Casa de Doces dos Sonhos."
Minha avaliação:
As alunas alcançaram o objetivo proposto de construção de uma obra de arte efêmera, visto ser uma obra em que foram usados materiais comestíveis e, portanto, de pouca durabilidade - dura o tempo - salvo os registros fotográficos, escritos etc. - da exposição. Interessante o resgate e a partilha dos sonhos de infância - de uma infância em que meus alunos, adolescentes, estão deixando para trás ao entrarem na idade adulta. A infância parece passar rápido, mas os sonhos e as fantasias permanecem... Interessante também a referência do trabalho à fábula de João e Maria, a clássica história dos Irmãos Grimm, onde a casa de doces simboliza o encanto e a sedução que o "proibido", o ilícito, pode ter... Ao saborearem as delícias de que a casa de doces da fábula era feita, os personagens, João e Maria, tiveram de provar as amarguras de uma realidade nada bela: a casa era um velho e destruído casebre de madeira, habitado por uma bruxa má, que os faz prisioneiros, escravos de suas vontades e que, por fim, intenta devorá-los!


Fragmento de texto do projeto dos alunos:



AMOR SEM FIM - Massinha de modelar forma um coração e a palavra "amor".
Fragmento de texto do projeto das alunas:

AMOR, UMA CHAMA QUE SE APAGA: Um coração feito de papel crepom e fósforos virgens, com o objetivo de se acender os fósforos para o trabalho se consumir...
Fragmento de texto do projeto dos alunas:
"O porque desta obra? Fizemos essa obra inspirada em um sentimento, o 'amor'. O amor é um sentimento que não conseguimos explicar, ele simplesmente acontece. em alguns casos, esse sentimento dura para sempre, mas em outros, não. No começo é uma chama ardente, o 'amor', mas depois, essa chama se apaga. E foi exatamente para mostrar essa situação que o trabalho foi feito, é um sentimento forte, quente, mas que vai se acabando, como as chamas que o consomem."


Inacreditável, não? Quando retornamos à escola, propus uns trabalhos com o mesmo material, após termos lido um texto(4) sobre a história da caneta esferográfica: pode parecer banal, mas a esferográfica é uma das grandes invenções de nosso tempo! Confiram abaixo algumas experiências com caneta esferográfica realizadas pelos alunos (participaram desta atividade todas as minhas turmas do Fundamental II - e não apenas a t. 1901, que conheceu a obra de Juan Casas de perto - ; apresentei às demais turmas as reproduções fotográficas das obras do artista). Embora eu tenha achado melhor, em um primeiro momento, deixar (esteticamente) "livre" a realização dos alunos com a caneta esferográfica, pensei e planejei (mas ficará para uma próxima ocasião) um trabalho a partir de fotos (simples) do cotidiano tiradas pelos próprios alunos. Assim eles poderão vivenciar a experiência de como os hiper-realistas trabalham.(5)



MURAL COM OS REGISTROS FOTOGRÁFICOS: Pensei em criarmos propostas de arte a partir dos registros fotográficos dos alunos (que foram muitos!) nas duas exposições, mas "dificuldades técnicas" - para imprimir e/ou salvar em mídias - e o fato de estarmos nos aproximando do fim do ano letivo, portanto, termos muitas semanas de provas (internas e externas), a ideia ficou só mesmo na ideia... De qualquer modo, montamos um mural com alguns dos registros fotográficos para assim compartilharmos com a comunidade escolar, imprimindo na permanência da memória a efemeridade das experiências vividas e trabalhadas pela turma.

















