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Brasília, 04/01/2012 - Nesta quarta-feira, 4 de janeiro, é comemorado o Dia Mundial do Braile. O sistema é um dos principais meios de acesso das pessoas com deficiência visual à leitura e à escrita. O Ministério da Educação, por intermédio do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (FNDE) e do Instituto Benjamin Constant, em parceria com estados e municípios, vem desenvolvendo ações de educação para universalizar o direito ao acesso à leitura e ao conhecimento pedagógico.Nossos ossos parecem pétreos, feito de mármore, mas, na verdade, são porosos. Ao contrário do que se pode imaginar, eles estão em constante processo de recomposição, uma vez que são formados por células que vão sendo absorvidas e renovadas permanentemente, de tal forma que a mais ou menos cada dez anos nosso esqueleto se refaz inteiro.Com o passar da idade, a velocidade de absorção aumenta e a velocidade de formação das células ósseas diminui. Resultado: o esqueleto vai ficando progressivamente mais poroso, perde resistência aos esforços e começam a surgir fraturas especialmente no pulso, na coluna e nos quadris, às vezes causadas por pequenos impactos como um espirro ou uma crise de tosse, por exemplo.Esse processo de rarefação que caminha do osso normal até o mais poroso chama-se osteoporose, doença para a qual existe prevenção e tratamento.
OSTEOPOROSE: DOENÇA ASSOCIADA À LONGEVIDADE
Drauzio – Osteoporose é uma doença nova?
Cristiano Zerbini – Há mais ou menos 25 anos, quando cursei a faculdade de medicina, quase ninguém falava em osteoporose. Hoje, porém, a maior incidência dessa doença transformou-a em tema de constante discussão. Isso se deve ao fato de que as fraturas, principal problema da osteoporose, estão ocorrendo com maior freqüência, porque as pessoas estão vivendo mais e, consequentemente, seus ossos se tornam mais susceptíveis ao desgaste.
A osteoporose é uma doença que, na maioria dos casos, está relacionada com o envelhecimento. Como a média de vida dos brasileiros subiu, tornou-se comum encontrar indivíduos mais velhos com fraturas de vértebras ou no colo do fêmur. Foram esses quadros que determinaram o maior destaque que se dá à doença atualmente.
FORMAÇÃO DA ESTRUTURA ÓSSEA
Drauzio – Você poderia explicar como ocorre a formação da estrutura óssea do esqueleto humano.
Cristiano Zerbini – O osteoblasto é uma célula que produz osso. Existe outra célula, o osteoclasto, que é responsável pela reabsorção do osso. O processo se dá mais ou menos assim: o osteoblasto faz e o osteoclasto retira a massa óssea. Até os 35 anos, construímos nosso esqueleto. Para sermos mais exatos, até os 20 anos, 90% do esqueleto humano estão prontos. Por isso, os adolescentes devem ingerir cálcio, tomar sol e fazer esporte, a fim de garantir a formação de ossos fortes. Dos 35 aos 45 anos, a relação entre as células formadoras e as que reabsorvem o tecido ósseo fica equilibrada. Depois dos 45 anos, as células que destroem o osso ficam mais ativas do que as que o recompõem e começamos a perder parte de nosso esqueleto. Essa perda atinge mais ou menos 0,5% ao ano, o que quer dizer que, em 10 anos, perdemos 5% de massa óssea e, em 20 anos, 10%. Trata-se, porém, de uma perda fisiológica que a medicina considera normal. Entretanto, mulheres após a menopausa, por exemplo, podem apresentar um desgaste mais acelerado e, quando a perda compromete 25% da massa óssea, são classificadas como portadoras de osteoporose, uma doença que deixa os ossos ficam fracos e sujeitos a fraturas. Perdas de 10% a 15% caracterizam a osteopenia. Nesse caso, os conduz à osteoporose.
Drauzio – O que representa o cálcio para a formação do esqueleto?
Cristiano Zerbini – Cálcio é um elemento fundamental para a formação do esqueleto. É recomendável ingerir 1 grama , ou seja, 1000mg de cálcio por dia. Um litro de leite tem 1000mg desse mineral. Pode ser leite integral ou desnatado, tanto faz. Tirar a gordura do leite não modifica a quantidade de cálcio nele contida.
Tomar um litro de leite por dia, porém, não é qualquer um que consegue. Como incorporar, então, esses 1000mg necessários na dieta diária? Um copo de leite, pela manhã, representa 250mg. Outros 250mg, retiramos dos alimentos que ingerimos nas demais refeições. Os 500mg restantes podem vir dos outros derivados do leite.
Uma fatia de ricota, de queijo branco ou um copo de iogurte fornecem aproximadamente 250mg de cálcio cada um. Já o queijo tipo suíço é muito mais rico nesse elemento. Portanto, porções menores desse laticínio podem garantir a quantidade adequada para a recomposição da estrutura óssea.
Drauzio – Suponho que boa parte de nossa população não consiga ingerir esses 500mg adicionais necessários para a reconstituição da estrutura óssea, não é?
Cristiano Zerbini – Infelizmente, é verdade. Estudo realizado por uma nutricionista de nossa equipe revelou que, em média, a ingesta diária da população de São Paulo contém entre 600mg e 800mg de cálcio, bastante aquém do necessário, portanto.
Drauzio – Isso pode significar um impacto mensurável na incidência da osteoporose?
Cristiano Zerbini – Sem dúvida. Isso funciona mais ou menos como uma caderneta de poupança. Quanto menos cálcio ingerido até os 35 anos, menor a probabilidade de construir ossos fortes e maior a de desenvolver osteoporose no futuro.
SUPLEMENTAÇÃO DE CÁLCIO
Drauzio – Há necessidade de suplementação de cálcio na infância?
Cristiano Zerbini – As crianças também necessitam ingerir 1000mg de cálcio por dia. Alguns autores defendem que 1200mg seria o número ideal, porque o esqueleto infantil está em formação e precisa de muita matéria-prima. Na natureza, leite e seus derivados são ricos em cálcio e seriam os alimentos indicados para suprir tal carência. Algumas crianças, porém, não gostam de leite in natura. A essas podemos oferecê-lo disfarçado sob a forma de sorvetes, milk-shakes, vitaminas com frutas, doces, pudins, etc. Se mesmo assim, elas não o aceitarem, existem suplementos, como o carbonato de cálcio ou o citrato de cálcio que podem ser administrados convenientemente.
Em alguns casos, as pessoas mais velhas se queixam de obstipação intestinal quando tomam esses medicamentos. Na verdade, é o carbonato de cálcio que prende mais o intestino, mas ele pode ser substituído pelo citrato de cálcio que apresenta menor incidência desse efeito colateral indesejável.
Não podemos esquecer que algumas pessoas nascem com intolerância ao leite, ou seja, produzem pouca ou nenhuma lactase, enzima importante para o metabolismo do leite. O que acontece, então? As pessoas se sentem mal quando tomam leite, porque não fabricam lactase suficiente para digerir a lactose, ou seja, o açúcar do leite que se acumula no intestino e provoca gazes e diarreia. Para evitar essa inconveniência, duas coisas podem ser feitas: comer queijo e iogurte que costumam provocar menos problemas e partir para leites em pó fabricados sem lactose.
Em relação aos outros alimentos que possuem cálcio, como brócolis e alguns grãos, por exemplo, é importante observar que praticamente todos os vegetais têm uma substância que se chama fitato que impede a absorção de cálcio pelo organismo. Por isso, não adianta tentar compensar a falta de ingestão de leite e seus derivados comendo mais verduras. A absorção do cálcio proveniente delas é muito pequena.
MEDICAMENTOS PARA REPOR CÁLCIO
Drauzio – Você disse que para se fazer uma suplementação de cálcio eficiente é necessário prescrever comprimidos, de preferência, citrato de cálcio. Isso quer dizer que certos medicamentos líquidos oferecidos às criancinhas não funcionam?
Cristiano Zerbini – Existem alguns remédios que até fazem parte da história de nossa infância que misturam cálcio, fosfato de cálcio e fluoreto de sódio. Sabe-se que não se pode misturar cálcio com flúor, porque esses elementos combinam entre si e são eliminados nas fezes sem que o organismo os absorva. Por isso, se houver a indicação de flúor para proteger a dentição, por exemplo, ele deve ser tomado distante das doses suplementares de cálcio.
VITAMINA D e CÁLCIO
Drauzio – Em que casos se recomenda a suplementação de cálcio associada à vitamina D?
Cristiano Zerbini – A vitamina D é fundamental para a absorção do cálcio. Nossa pele fabrica uma substância que precisa da luz do sol, principalmente do sol da manhã que é rico em raios ultravioleta, para transformar-se em vitamina D. Antes que o processo se complete, essa vitamina passa pelo fígado e pelos rins e só depois está pronta para favorecer a maior absorção de cálcio pelos intestinos, assegurando, assim, que ele passe para circulação e desempenhe suas funções no organismo.
Por isso, é tão importante tomar sol. No entanto, pessoas mais velhas frequentemente deixam de observar essa recomendação. Gostam de ficar dentro de casa, usam roupas mais fechadas e a ausência de sol batendo direto sobre a pele prejudica a produção de vitamina D. Além disso, o fígado e os rins dessas pessoas podem já não estar funcionando tão bem o que compromete o aperfeiçoamento da vitamina D nesses órgãos e sua ação adequada no organismo. Por isso, por mais que a pessoa tome cálcio, não assegura que passe o suficiente para a circulação. A necessidade só é suprida quando se prescreve uma pequena sobrecarga em sua dosagem associada à ingestão de vitamina D.
MENOPAUSA e OSTEOPOROSE
Drauzio – Qual a relação existente entre menopausa e osteoporose?
Cristiano Zerbini – O hormônio feminino estrógeno é um grande protetor dos ossos. Por isso, até a menopausa, as mulheres apresentam vantagem em relação aos homens no que se refere à parte cardiovascular, à pele e ao esqueleto. Quando terminam as menstruações por volta dos 51 anos, há uma queda significativa no nível desse hormônio e elas perdem a proteção natural que tinham antes da menopausa. Seus ossos ficam como órfãos. A célula responsável por sua destruição predomina sobre as formadoras e o desgaste ósseo fica mais acelerado. Desse modo, nessa faixa de idade, as mulheres requerem atenção médica especial, porque o risco de fraturas aumenta consideravelmente: 50% delas poderão quebrar um osso por causa da osteoporose.
Drauzio – Os homens também perdem massa óssea?
Cristiano Zerbini - Os homens também perdem osso. A proporção, porém, é de um homem para dez mulheres com osteoporose. Entretanto, o risco de fraturas no sexo masculino é bastante menor, gira ao redor de 13%. O hormônio masculino protege os ossos, mas sua ação é menos poderosa do que a do hormônio feminino.
Além disso, homens que fumam e os muito magros correm maior risco de desenvolver a doença. Provavelmente os gordinhos levem vantagem porque, para suportar o excesso de peso, seus ossos precisam ser mais resistentes.
PREVENÇÃO E TRATAMENTO DA OSTEOPOROSE
Drauzio – O que as pessoas devem fazer para prevenir a osteoporose?
Cristiano Zerbini – Três coisas são fundamentais: cálcio, sol e exercícios físicos. Músculos exercitados e em movimento colaboram para que os ossos fiquem mais fortes.
Drauzio – Que tipo de esporte é o mais adequado para essa finalidade?
Cristiano Zerbini – Os esportes mais indicados para a produção contínua de ossos são os que provocam grande tensão muscular. Repare no jogo de vôlei ou de basquete. O jogador pula, cai, levanta, dá impulso para o corpo subir, luta contra a gravidade. Todos esses exercícios ajudam as células que produzem os ossos. Nunca fiz um exame de densitometria óssea num halterofilista que levanta pesos enormes, mas acredito que seu esqueleto deva ser bastante desenvolvido.
De qualquer forma, caminhar, nadar, andar de bicicleta também são bons exercícios, embora a força muscular despendida seja menor. Veja, por exemplo, que as cidades onde mais se anda de bicicleta são planas, porque é difícil subir uma ladeira pedalando.
Drauzio – Que tratamentos existem para a osteoporose?
Cristiano Zerbini – Nas pessoas com osteoporose está instalada, é preciso estacionar a perda do osso e, se possível, recuperar um pouco de massa óssea. Existem medicações que ajudam a alcançar esses objetivos. São os bisfosfonatos. Recentemente, foi lançado um remédio desse grupo para ser tomado uma vez por semana, por via oral, o que facilitou a adesão ao tratamento.
DENSITOMETRIA ÓSSEA
Drauzio – A partir de que idade deve ser feito o exame de densitometria óssea?
Cristiano Zerbini – Vamos falar das mulheres, o grupo mais atingido pela osteoporose. A densitometria óssea deve ser indicada a partir da menopausa. Antes, só se houver um fator de risco importante, como o encontrado nas pessoas com dificuldade para ingerir cálcio, as que sofreram cirurgia no estômago ou foram submetidas a tratamento prolongado com cortisona. Com base no resultado de densitometria óssea, pode-se fazer um diagnóstico mais acurado.
Drauzio – A densitometria pode revelar osteopenia que é uma rarefação óssea e osteoporose propriamente dita. Quando deve ser introduzida a medicação?
Cristiano Zerbini - A osteopenia sugere prevenção. O que fazer para que essa patologia não evolua para osteoporose? O fundamental é aderir a um programa de exercícios, aumentar a exposição ao sol, ingerir cálcio e, em boa parte dos casos, repor estrógeno, prescrição que precisa ser estudada individualmente porque, se a reposição hormonal traz benefícios, também apresenta riscos.
Quando o exame mostra que a osteoporose já está instalada, a indicação é ministrar bisfosfanatos e outros medicamentos semelhantes ao estrógeno com mais vantagens e menos contraindicações. Espera-se para breve o lançamento de um tipo de medicação específica que aja sobre o processo de formação dos ossos.
FRATURAS RELACIONADAS COM A OSTEOPOROSE
Drauzio – Quais as fraturas mais comuns relacionadas com a osteoporose?
Cristiano Zerbini – As fraturas mais importantes ocorrem no colo do fêmur – osso longo localizado na coxa – e nas vértebras da coluna vertebral. Nas vértebras, os ossos não se rompem de vez. Ocorrem pequenas fraturas que somadas podem provocar o esmagamento das vértebras atingidas com consequente redução da altura da pessoa.
Drauzio – No colo do fêmur, a fratura pode ser corrigida com uma prótese. O que fazer quando ela ocorre na coluna?
Cristiano Zerbini – Não há o que fazer. O problema é que só um terço das fraturas da coluna são sintomáticas. Dois terços são indolores. Isso faz com que muitas senhoras fiquem corcundinhas, mas não se queixem de dor nas costas. Atribuem a perda progressiva da altura ao processo natural do envelhecimento. Na verdade, o diagnóstico é outro: a osteoporose provocou pequenas fraturas que danificaram suas vértebras e provocaram esse arqueamento das costas – a corcundinha da velha senhora – que erroneamente imaginam ser consequência do peso dos anos.
Cocaína e crack são drogas psicoativas que provocam alterações cerebrais muito importantes. Aspirada, fumada ou injetada na veia, a cocaína se distribui pelo corpo e age em todo o organismo, mas sua ação no cérebro é responsável pelo efeito que provoca dependência.
Para entender o processo, vale lembrar que, no cérebro, há cem bilhões de neurônios, células características do sistema nervoso que possuem um corpo central e inúmeros prolongamentos ramificados, os dendritos. É através deles que o estímulo é conduzido de um para outro neurônio. Os dendritos não se ligam, porém, como os fios elétricos. Entre eles existe um pequeno espaço livre chamado sinapse (Imagem 2) onde várias substâncias químicas são liberadas e absorvidas. Uma das mais importantes é a dopamina.
Quando surge o estímulo que dá prazer, por exemplo, a dopamina cai no interior da sinapse e, como a chave que entra numa fechadura, penetra nos receptores do neurônio seguinte e transmite a sensação de prazer. A dopamina que sobra na sinapse é reabsorvida pelos receptores da membrana do neurônio que emitiu o sinal e a sensação de prazer desaparece.
O que acontece quando a pessoa fuma, injeta ou cheira cocaína? A droga entope os receptores que reabsorvem a dopamina, deixando-a por mais tempo na sinapse e perpetuando a sensação de prazer.
AÇÂO DA COCAÌNA NO CÉREBRO
Drauzio – Na casa de Detenção, cheguei a ver rapazes de 25 anos com derrame cerebral depois de uma noitada de crack.
Ronaldo Laranjeira – As doenças cardiovasculares são realmente as maiores causas de mortalidade relacionadas à cocaína, uma das substâncias mais potentes para gerar prazer imediato, principalmente na forma de crack cuja ação é muito mais rápida e efetiva. É atrás desse prazer que o usuário está.
O padrão de uso dessa droga é quase na forma de tudo ou nada: ou a pessoa fica dependente ou não se interessa por ela. Embora existam, é pequeno o número de usuários esporádicos, exatamente porque o efeito poderoso e reforçador do crack logo gera a dependência.
Drauzio – Qual o mecanismo cerebral que transforma a cocaína no interesse maior na vida das pessoas?
Ronaldo Laranjeira – Em nosso cérebro existe um sistema de recompensa que é o núcleo do prazer. Quando a pessoa come, dorme, tem relações sexuais – o repertório é muito grande – ativa esse sistema biológico. Ao longo de milhares e milhares de anos de evolução, ele foi desenvolvido como forma de preservar a espécie e o indivíduo. Por isso, a tendência é repetir os comportamentos que trazem prazer.
Drauzio – Na verdade, o cérebro acha que tudo o que dá prazer é bom para o organismo.
Ronaldo Laranjeira – De certa forma, é bom mesmo, pois resulta de um mecanismo protetor. Graças a ele, os homens aprenderam a comer, a ter relações sexuais, a abrigar-se do frio. O problema é que as drogas, especificamente a cocaína, utilizam esse mecanismo biológico e deturpam a fonte natural do prazer, fazendo com que a pessoa repita seu uso não se importando com o que lhe possa acontecer.
A tendência do usuário de cocaína, mais do que o das outras drogas, é negligenciar todas as outras fontes de prazer. Às vezes, ele para de comer, de ter relações sexuais, de trabalhar. Hoje se considera a dependência de maneira geral, e particularmente a de cocaína, uma doença cerebral, uma vez que o dependente usa a droga de forma deletéria para o cérebro.
Drauzio – No cérebro, quais são os circuitos fundamentais da ação da cocaína?
Ronaldo Laranjeira – A cocaína age sobre três pontos: o tronco cerebral, o núcleo-acubens e sobre a região do córtex cerebral pré-frontal, a mais importante de todas.
A sensação de prazer tem conexão com o pensamento. Não é só uma sensação visceral, de prazer físico. É também um prazer cerebral. Por isso, o usuário de cocaína pensa que tem controle sobre a busca do prazer – “Não uso cocaína porque sou dependente; uso porque quero essa fonte de prazer”. Ele deturpa seu pensamento em função de uma necessidade mais primitiva, ou seja, a busca do prazer rápido e imediato que a cocaína proporciona. Envolvido por esse processo incessante, desenvolve uma doença chamada dependência química. Muitos de seus comportamentos vão ser explicados pelo mecanismo biológico que perpetua o uso da droga, embora haja fatores sociais e de facilidade de oferta que também interferem.
O conhecimento desses fatos é importante para orientar as relações quer familiares quer de profissionais que lidam com os usuários de cocaína.
VIAS DE ADMNISTRAÇÃO DA COCAÍNA
Drauzio – Vamos falar sobre as três vias de administração da cocaína: a injetável na veia, a aspirada e a fumada na forma de crack.
Ronaldo Laranjeira – Na primeira metade da década de 1980, era grande o número de usuários de cocaína por via endovenosa. A maioria acabou morrendo infectada pelo vírus HIV. Hoje, no Brasil, esse número é muito pequeno.
Drauzio – Atualmente, nas grandes prisões de São Paulo, esse padrão de uso desapareceu.
Ronaldo Laranjeira – Também é uma exceção encontrá-lo nas pessoas que procuram tratamento nos consultórios ou clínicas. O mais comum é a droga ser aspirada. O efeito é mais lento. No entanto, o seu uso frequente faz com que a absorção da droga seja prejudicada pela vasoconstrição nasal, uma vez que os vasos do nariz acabam sendo lesados.
Fumada na forma de crack é a via mais rápida, eficaz e poderosa de absorção, já que a superfície pulmonar é muito grande, mais ou menos do tamanho de um quadra de tênis, e a pessoa consegue inalar o quanto de fumaça quiser sem a limitação da área pequena da mucosa nasal.
Por isso, a capacidade de o crack produzir dependência é muito maior até do que a da cocaína aplicada por via endovenosa. Isso explica por que os usuários de crack acabam deteriorando tão rapidamente, uma vez que não fazem mais nada na vida além de fumar a droga. Às vezes, os dependentes passam dois ou três dias fumando e só param quando não suportam mais fisicamente. Aí, comem ou dormem, mas logo depois entram no círculo de novo.
DURAÇÃO DO EFEITO
Drauzio – Meu primeiro contato com o crack foi através de um menino que dizia – “Eu fumei isso uma vez e fiquei horas curtindo o maior barato”. Depois acabei tendo longa experiência com o crack na Casa de Detenção, em São Paulo. Para minha surpresa, vi que seu efeito durava segundos. O dependente acende uma pedra atrás da outra. Por que na primeira vez o efeito é duradouro, leva horas para desaparecer e depois acaba num segundo?
Ronaldo Laranjeira – A pessoa vai ficando tolerante aos efeitos da cocaína, fenômeno que acontece com todas as drogas. Na primeira vez, como o cérebro não está acostumado, o impacto de prazer é mais imediato e tende a durar mais. Com o passar do tempo, porém, há uma readaptação cerebral ao estímulo constante da droga. O cérebro vai se acostumando e são necessárias doses cada vez maiores para produzir o efeito que passa muito depressa. Na verdade, o cérebro procura sempre manter certo equilíbrio. Ele tenta readaptar-se após a exposição à droga o que, com a repetição do uso, torna o efeito mais rápido e passageiro, contribuindo assim para manutenção da dependência e o aparecimento dos danos causados pela cocaína.
Vale salientar que existe o mito de que a cocaína é um estimulante cerebral, considerando seu efeito euforizante que faz a pessoa sentir-se mais poderosa. Na realidade, porém, o metabolismo do cérebro cai muito com seu uso, porque diminui a quantidade de oxigênio em zonas importantes. O cérebro do usuário de cocaína é embotado, muito pobre em termos de estímulos.
Atualmente, há recursos que permitem avaliar o funcionamento cerebral e deixam claro o enorme contraste existente entre o cérebro normal, rico e vivo que consome bastante glicose, por exemplo, e o do usuário de cocaína, que se mostra alterado substancial e principalmente nas regiões frontais, ou seja, nas regiões do pensamento, do controle dos estímulos e da impulsividade. Isso explica em parte o comportamento impetuoso dessas pessoas. Conhecer esse fato é importante para as famílias e para os clínicos, pois ajuda a entender por que elas não pensam muito, gastam dinheiro demais e muitas vezes se tornam violentas (parte da violência urbana está relacionada com o uso de cocaína). A pessoa que está “cheirada” e comete se envolve num crime é a que atira primeiro e por qualquer motivo, já que o funcionamento de seu cérebro está substancialmente alterado.
DESTRUIÇÃO DOS NEURÔNIOS
Drauzio – A cocaína destrói os neurônios?
Ronaldo Laranjeira – Com certeza. Fotografias cerebrais revelam que a diminuição do oxigênio, especialmente nas regiões frontais provocada pelo uso crônico da cocaína, produz alterações que não se recuperam mesmo depois de vários anos de abstinência.
Drauzio –Existe um limite de uso a partir do qual o usuário não recupera mais a função cerebral perdida?
Ronaldo Laranjeira – Antes da década de 1980, a cocaína praticamente não existia no Brasil. Portanto, até alguns anos atrás, era difícil encontrar pessoas que estivessem usando essa droga há vinte anos ou mais. Como isso é possível agora, pôde-se constatar que elas têm lesões cerebrais importantes. Memória, concentração, capacidade de elaborar pensamentos complexos, de ponderar são funções seriamente prejudicadas.
Uma forma de testar o cérebro de um usuário de cocaína é a simulação de um jogo, o gambling test. Estudos mostram que o dependente é muito mais impulsivo, busca o prazer imediato, não se articula para retardar as consequências de seu comportamento, deixando claro os danos que a droga causa nesse órgão.
PARANOIAS
Drauzio – Você poderia explicar como se estabelecem as paranoias associadas o uso de cocaína?
Ronaldo Laranjeira – Elas têm muito a ver com o sistema dopaminérgico. Doses maiores de dopamina provocam sintomas paranoides à semelhança do que ocorre com as anfetaminas, muito consumidas nos anos de 1950 para manter as pessoas acordadas. Pilotos de avião, por exemplo, que às vezes usavam essa droga para não dormir, tinham surtos psicóticos em pleno voo.
De forma marcante, a cocaína produz sensações persecutórias provocadas pelo fluxo muito rápido de dopamina no cérebro. O usuário se tranca no banheiro, imaginado que a polícia vai invadir o local e prendê-lo. É quase um quadro semelhante ao da esquizofrenia paranoide. Dura algumas horas, eventualmente poucos dias e depois tende a desaparecer, mas é sinal indiscutível de que houve uma mudança importante da química cerebral.
Drauzio – O que chama a atenção nesses casos é que a pessoa entra em paranoia e, passado o efeito da cocaína, diz – “Imagina, eu estou louco! A polícia não vai entrar aqui, está tudo fechado; aliás ninguém sabe sequer que estou aqui”. Aí, ele cheira de novo e tem a mesma sensação, tranca-se novamente no banheiro e tudo ocorre do mesmo modo outra vez.
Ronaldo Laranjeira – Na realidade, essa talvez seja a essência da dependência. Mesmo diante de consequências negativas, a pessoa não tem forças para mudar de comportamento, porque o lado prazeroso e reforçador é muito mais importante e forte.
Drauzio – Mas ele não sente prazer, ao contrário, entra em pânico nesse momento.
Ronaldo Laranjeira – É uma sensação imediata, às vezes fugaz, mas existe uma alteração no sistema de recompensa cerebral. Se não existisse, não seria possível explicar tal comportamento.
A consequência negativa de uma substância não impede que ela continue sendo usada, apesar de o efeito paranoide ocorrer quase imediatamente após o uso. Ou seja, a pessoa valoriza essa etapa de efeito rápido, mesmo que seja fugaz e apesar de saber que irá enfrentar reações complicadas.
Tive um paciente que se picava mais de 50 vezes até conseguir injetar a droga, mas dizia que a expectativa do prazer compensava, e muito, o desconforto das picadas. Esse é o aspecto mais impressionante dentro do componente biológico da dependência.
CARACTERÍSTICAS DA CRISE DE ABSTINÊNCIA
Drauzio – Ex-fumantes se queixam de que a vontade de fumar nunca passa. Usuários de cocaína que param de usar a droga não se referem a essa premência. Dizem que ficam bem sem ela, desde que não a vejam porque, se isso acontecer, enlouquecem. Cocaína não provoca uma crise de abstinência tão intensa quanto as outras drogas?
Ronaldo Laranjeira – Os sintomas de abstinência são peculiares a cada droga. O impacto do reflexo biológico da cocaína é diferente do da nicotina. O sintoma agudo da cocaína é o efeito que dá prazer imediato e a sensação de poder. Quando ele passa, o sintoma remoto da abstinência se caracteriza por diminuição desse prazer, um pouco de depressão e alienação.
Você se referiu a um aspecto importante da abstinência em sua pergunta. Estudos indicam que, quando o usuário vê cocaína, ou se encontra numa situação em que pode consegui-la, ou assiste a filmes que abordam o tema, várias regiões de seu cérebro quase que se iluminam, pois o impacto biológico é muito grande e aumenta a vontade de consumir a droga.
Isso tem implicação no tratamento. O cérebro de pessoas que se tornaram dependentes e estão tentando recuperar-se, reage de modo distinto diante da possibilidade de usar cocaína. Algumas ficam internadas seis meses em uma clínica e voltam para casa. A perspectiva de ter acesso à droga ou de encontrar um amigo que a consuma provoca uma reação biológica, um impacto cerebral diferente. Isso já foi demonstrado pelo PET Scan (um exame para analisar a atividade dos vários centros cerebrais) e essas pessoas precisam estar preparadas para enfrentar a inevitável vontade de usar cocaína, caso se vejam diante dessa possibilidade no futuro.
Drauzio – Aplicando o PET Scan é possível fazer o mapeamento do cérebro?
Ronaldo Laranjeira – Trata-se de técnicas que fazem não só uma fotografia simples do cérebro, mas uma fotografia que deixa ver seu funcionamento diante do estímulo visual da cocaína, já que algumas regiões se acendem como se ali houvesse uma luz vermelha e simultaneamente ocorre um pico de vontade para usar a droga.
Drauzio – É por isso que a medicina classifica a dependência química de modo geral como doença?
Ronaldo Laranjeira – Atualmente a tendência é classificar a dependência como uma doença do cérebro. Embora seja uma doença multifatorial, existe um componente cerebral muito importante para ser abordado durante o tratamento. Achar que a pessoa é dependente porque é fraca, não tem força de vontade é minimizar o problema. Às vezes, ela não consegue lidar com o apetite exagerado pela cocaína por causa do impacto biológico que sofre.
Em síntese, a dependência é o desenvolvimento de um apetite específico sobre uma substância. No tratamento, a pessoa precisa aprender como domar esse desejo exacerbado. Por isso, é de extrema importância desenvolver medicações que diminuam esse apetite pelo uso da cocaína e façam com que a força de vontade e a pressão psicológica para suspender seu uso se manifestem de forma mais tranquila.