Dados do Bolsa Família mostram
que o programa está melhorando a frequência escolar de beneficiários e
aumentando a participação dos pais
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Deise
acompanha os filhos até a escola, em Santos (SP). Boa frequência às
aulas é condição para receber beneficio do Programa Bolsa Família |
"Avisa
para eles que esse carro não é nosso!", diz a mãe de Deise ao ver a
reportagem. Separada e com dois filhos, Deise Francisca de Barros mora
na casa de sua mãe e da avó, que abriga ainda a família da prima,
proprietária do veículo, nos fundos. Sem renda fixa, vivendo apenas dos
bicos eventuais como faxineira, Deise é beneficiária do programa Bolsa
Família (PBF). Uma das condições para receber o auxílio é manter os
filhos frequentando a escola, o que Deise se esforça para garantir.
Passa de meio-dia. No quarto que divide com os meninos, os uniformes
estendidos sobre a cama aguardam a hora da aula. Marcelo, de 9 anos,
mostra seus cadernos, a mochila com o símbolo do Corinthians e diz que
gosta de fazer lição. Matriculado no 3° ano do ensino fundamental, tem
dificuldades de aprendizagem. A mãe inscreveu-o numa turma de reforço,
oferecida no contraturno das aulas por uma instituição da região. O
esforço trouxe resultados e Marcelo já começa a ler. Alex, o irmão mais
novo, de 6 anos, está no 1º ano e teve problemas para se adaptar à nova
escola. "Consegui matriculá-lo na escolinha de futebol da prefeitura e
ele ficou tão contente que não reclamou mais das aulas. Infelizmente, o
projeto foi cancelado para o próximo ano", lembra a mãe.
A
pé ou na garupa de sua bicicleta, Deise leva as crianças para a escola
que fica no bairro em que moram, o Bom Retiro, em Santos (SP). Seus avós
migraram da Bahia e do Rio Grande do Norte em busca de empregos - o pai
e o avô trabalharam no porto, o que mais movimenta cargas no Brasil.
"Aqui era tudo mangue, fomos construindo aos poucos. Hoje está cheio de
casas, mas já não é mais calmo como antes, tem violência", diz sua mãe,
Genésia Francisca Barros. "Meu marido trabalhava de dia e fazia a casa à
noite", completa Bernardina de Jesus Santos, avó de Deise. "Foi uma
luta. Mas ela nunca fica pronta", constata ao apontar as paredes sem
reboco.
Falante e participativa, Deise tem 31 anos. Estudou
até a 8ª série do fundamental e é assídua frequentadora das reuniões
escolares dos filhos. Também participa dos cursos oferecidos pela
Assistência Social para os beneficiários do Bolsa Família e de uma
comissão municipal do PBF para auxiliar a visita às famílias
beneficiárias e orientá-las sobre seus direitos, o acesso a saúde e
outros serviços.
Desempenho
O desempenho
dos alunos do Bolsa Família tem sido foco de diversas pesquisas, o
objetivo é entender se o programa influencia o ensino e como isso
ocorre. Ao cruzar dados do Educacenso com o de beneficiários do
programa, o Ministério da Educação (MEC) encontrou a variação das médias
de abandono escolar: 3,6% dos alunos beneficiados pelo PBF do ensino
fundamental deixam a escola contra 4,8% da média nacional. No ensino
médio, o impacto aumenta: enquanto 7,2% dos beneficiários abandonam os
estudos, a média nacional é 14,3%. "A obrigatoriedade da frequência cria
um pacto entre a família e o Estado com a educação das crianças", diz
Daniel Ximenes, diretor de Estudos e Acompanhamento de Vulnerabilidades
do MEC.
Ximenes destaca os resultados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, que aponta para uma melhora na
escolarização dos 20% mais pobres da população brasileira - público-alvo
do Bolsa Família. Entre 2005 e 2009, a frequência à escola entre os
alunos de 15 a 17 anos aumentou 8,4 pontos percentuais nessa parcela
mais pobre da população, passando de 72,6% para 81%, enquanto a taxa
nacional cresceu apenas 3,5 pontos, alcançando 85,2% em 2009. "Essas
taxas não cresciam antes de 2006, quando as condicionalidades
educacionais para receber o Bolsa Família foram implantadas."
A
Avaliação de Impacto do Bolsa Família, divulgada pelo Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em 2010, aponta que as
crianças incluídas no PBF apresentam maiores taxas de matrícula escolar
(4,4% mais, chegando a uma diferença de 11,7% no Nordeste) e progressão
no sistema educacional (6% maior). O estudo comparou 11,4 mil famílias
com e sem o beneficio, mas de regiões e perfis de renda semelhantes.
Atualmente o PBF acompanha a frequência escolar de 14,3 milhões de
alunos entre 6 e 17 anos.
Fatores de influência
Quanto
desses resultados pode ser atribuído ao Bolsa Família e não a outras
políticas sociais ou educacionais? A obrigatoriedade da frequência dos
estudantes seria o principal fator de influência nesse avanço? "Outros
estudos são necessários para mensurar o impacto do programa nesses
números", diz a diretora de condicionalidades do MDS, Cláudia Baddini. O
MEC realizou uma pesquisa qualitativa sobre o assunto, cujos dados
estão sendo analisados e ainda não foram divulgados. "Entrevistamos
professores e diretores que têm contato com esses alunos e eles
apontaram a melhora da autoestima, da alimentação, do vestuário como
fatores que influenciaram um ambiente mais favorável ao estudo",
explica.
Essa percepção é semelhante à apresentada pela
Operadora Máster de Frequência Escolar do PBF de Salvador, na Bahia -
estado com maior número de famílias beneficiárias. Rita Sales, que
trabalha com o programa desde 2006, vê melhora no desempenho dos alunos e
pais mais preocupados com a frequência de seus filhos à escola. "Há uma
diferença entre os alunos beneficiários do programa e não está apenas
na frequência às aulas. Eles mudam seu comportamento, sentem-se
estimulados a estudar, pois sabem que o benefício irá ajudar a eles e a
sua família. Percebo isso tanto nas notas como no contato com os pais,
professores e diretores. São esses os pais que mais participam do
Conselho Escolar, por exemplo."
Já em Santos, Lídia
Nascimento, coordenadora da Unidade Municipal de Ensino Pref. Esmeraldo
Tarquínio, não vê diferença entre o desempenho dos alunos. "O perfil de
todos os nossos estudantes é muito parecido, só noto alteração na maior
frequência às aulas dos beneficiários", diz. Na escola, que atende do 1°
ao 5° ano do ensino fundamental, 44% dos 758 estudantes matriculados
participam do PBF - os dois filhos de Deise entre eles.
"O
apoio da escola é importante não apenas para orientar os pais sobre o
estudo dos filhos, mas para ajudá-los a lidar com eles. Há famílias que
não têm controle sobre os filhos de 10 ou 11 anos, não conseguem
obrigá-los a frequentar a escola", ressalta Lídia. Ela lembra que, ao
buscar os motivos da ausência às aulas de uma aluna, precisou conversar
diretamente com a menina para convencê-la a voltar para a escola.
Controle da frequência
A
Esmeraldo Tarquínio acompanha a frequência de todos os alunos e
repassa as informações mensalmente à secretaria de Educação - a
fiscalização da presença é responsabilidade do município. O controle é
feito pelos professores e a partir de cinco faltas sem justificativa a
família é contatada. "Ligo para os pais ou envio um telegrama, mas há
casas sem telefone e onde o correio não faz entregas, em geral nas
regiões violentas. Nesses casos, solicito aos funcionários da escola que
moram perto do aluno que entrem em contato com a família", conta Lídia.
Os pais também são orientados a comunicar a escola quando seus filhos
precisarem faltar.
Contatar as famílias é um desafio ainda
maior em Cocos, município de mais de 10 mil km² no oeste da Bahia. Na
Escola Municipal Rui Barbosa, no centro da cidade, quase metade dos 460
alunos é da zona rural, o que dificulta o contato. "Com os alunos da
região, os pais nos avisam o motivo da falta antes que os procuremos. Já
com os da zona rural, muitas vezes só descobrimos o porquê da ausência
quando voltam à escola", diz o diretor Vivaldo Martins.
Problemas de saúde dos alunos, que devem ser justificadas com atestado, a
negligência dos responsáveis e o impedimento de ir e vir - típico das
zonas violentas - estão entre os principais motivos de faltas em
Salvador (BA), onde mais de 187 mil famílias participam do PBF. Para
orientar os pais dos alunos, o município organiza reuniões frequentes
que abordam desde as condicionalidades do Bolsa Família até a
importância da frequência à escola e do bom rendimento dos alunos.
Em Belo Horizonte (MG), com 70 mil famílias beneficiárias, o grupo de
trabalho que faz a gestão das condicionalidades se divide em nove
Núcleos Intersetoriais Regionais que acompanham e encaminham as
políticas e diretrizes planejadas. As regionais apuram as faltas dos
alunos, suas justificativas, organizam visitas às famílias, reuniões com
os pais, acompanhamento de saúde, educação e assistência social. "No
início, visitávamos apenas as famílias do PBF, mas há dois anos
acompanhamos todos os alunos com problemas de frequência ou dificuldade
de aprendizagem", explica Flávia Julião, coordenadora da gerência
família na escola.
As informações sobre a frequência devem
ser usadas pelo gestor de educação do Bolsa Família a favor do ensino.
"Ele pode mostrar aos diretores e professores quem são essas famílias,
suas características e dificuldades, até para que possam adequar o
ensino às suas necessidades. É importante capacitar a rede para mostrar
aos profissionais seu papel no programa de melhora qualitativa da
educação", diz Cláudia Baddini, do MDS.
Para Daniel Ximenes,
do MEC, o próximo passo é absorver essas informações nas políticas
públicas municipais e escolares. "O grande desafio é fazer com que esses
dados sejam utilizados pelas próprias escolas para garantir a
permanência desses alunos mais pobres na escola e aumentar a proximidade
com a comunidade."
Gestão dos dados de frequência |
Por
meio de um procedimento administrativo, a Secretaria de Educação de
Santos (SP) garante o controle dos dados de frequência dos alunos do
Bolsa Família e seu envio para o MEC dentro do prazo. As informações,
passadas pelas escolas à Secretaria, são organizadas em planilhas e dão
origem a um relatório gerencial. Os casos mais graves, como violência
doméstica, gravidez precoce e óbito de alunos, são levantados e
discutidos em reuniões mensais com a comissão de acompanhamento do
programa, formada por funcionários da Saúde, da Educação, da Assistência
Social e representantes das famílias. Nesses encontros são definidas as
ações de combate aos problemas detectados. "Periodicamente
realizamos formações sobre o preenchimento dos dados de frequência e o
acompanhamento desses alunos", diz Mara Mei, responsável pela
organização dessas informações no município. A Secretaria ainda planeja
organizar um encontro regional das secretarias de educação da Baixada
Santista para trocar experiências e discutir um planejamento comum entre
os municípios, já que é grande a migração de alunos entre as redes.
Sicon Márcia
Teixeira, coordenadora da Secretaria de Políticas Sociais de Belo
Horizonte (MG), acredita que o Sistema de Condicionalidades do Programa
Bolsa Família (Sicon) ajudar a organizar as ações. "O acompanhamento era
disperso nas regionais. Hoje, temos o histórico das famílias acessível
pelo sistema para as áreas envolvidas no programa. Facilita para tratar
as vulnerabilidades de forma integrada." Para usar o Sicon, implantado
em 2010, o município realizou um treinamento intensivo e investiu no
acesso à internet das áreas mais distantes. O PBF
está presente em todos os municípios do país, que são os responsáveis
pelo controle da frequência dos alunos das escolas de seu território,
não apenas as municipais. "Nossa equipe também vai às unidades estaduais
para apurar a frequência, mas é mais difícil realizar reuniões de
formação com eles", explica Flávia Julião, de Belo Horizonte. |
Renda e Diferenças nas escolaridade
Taxas de rendimento escolar (em %) Escolas Públicas |
| Aprovação | Aprovação | Abandono | Abandono |
Brasil | Censo | Beneficiários | Censo | Beneficiários |
Ens. fundamental | 82,3 | 80,5 | 4,8 | 3,6 |
Ens. médio | 72,6 | 81,1 | 14,3 | 7,2 |
Fonte: Educacenso 2008 e Sistema Presença - Frequência Escolar PBF 2008
Taxa de frequência escolar dos adolescentes de 15 a 17 anos de idade, por renda familiar mensal per capita* (%) |
| 1° quinto | 2° quinto | 3° quinto | 4° quinto | 5° quinto |
Brasil | 81 | 83,2 | 85,1 | 88,3 | 93,9 |
Norte | 79,5 | 81,5 | 84,7 | 86,4 | 90,8 |
Nordeste | 78,9 | 84,5 | 82,8 | 86,2 | 92 |
Sudeste | 83,5 | 86,5 | 88 | 90,1 | 96,5 |
Sul | 75,3 | 81,4 | 83,6 | 88,3 | 93,2 |
Centro-Oeste | 78,8 | 83,1 | 81,9 | 84,6 | 91,3 |
Fonte: IBGE, Peaquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009
* o 1° quinto corresponde ao segmento mais pobre