Produzidas por meios diversos, as manifestações culturais oferecem a
compreensão dos valores e hábitos da sociedade. Sua interface com a
educação, por isso, é óbvia. São áreas irmãs, uma alimenta a outra.
Quatro projetos com estudantes, nas áreas de música, da fotografia, das
artes representadas no teatro e no museu, ilustram esta relação,
indicando que os benefícios para os alunos não se limitam à aquisição de
um repertório cultural. No contexto educativo, a arte é um veículo
poderoso de inclusão: fortalece vínculos com a família, a escola e entre
os colegas. Aumenta a participação de todos na comunidade.
Um exemplo é o projeto Música para Todos, do qual se beneficiam
estudantes da rede pública de Teresina (PI). O fundador da iniciativa é o
ex-comerciante de instrumentos musicais Luís Sá, que imaginava “ficar
rico” com uma grande escola de música. Mas a demanda era outra: “Eu via
muitos jovens carentes querendo uma escola gratuita. Um dia, um grupo se
aproximou perguntando se era ali que se fazia matrícula. ‘É, pode
entrar’, eu disse, decidindo mudar meu rumo e fazer algo por essa
juventude”.
No Rio de Janeiro, o Passageiro do Futuro capacita jovens nas
técnicas das artes cênicas. “Realizamos encontros regulares com as
famílias e percebemos como as atividades as mobilizam. O principal é que
os jovens se sentem estimulados, capazes, o que aumenta o interesse
deles pela escola”, diz Juliana Teixeira, idealizadora do projeto.
Em Minas Gerais, destacam-se as ações do Instituto Inhotim, que
abriga um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do mundo,
em meio a outro acervo, botânico. Lá se desenvolvem o projeto
Descentralizando o Acesso, para professores; a Escola Integrada, que
recebe estudantes para explorações diversas no Instituto, e o
Laboratório Inhotim, onde adolescentes têm formação em arte, durante um
ano.
Na Escola do Olhar, projeto da organização paulistana ImageMagica, o
laboratório envolve alunos com a fotografia, para que se apropriem
desta linguagem visual como instrumento de comunicação e transformação
social. “Buscamos o desenvolvimento artístico, cultural e educacional
dos jovens”, diz Carolina Silva, coordenadora do programa.
São Paulo, SP - Projeto Escola do Olhar
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“Perceber o mundo em que se vive é o primeiro passo para
modificá-lo”. A frase marca os comunicados da ImageMagica, criada em
1995, em São Paulo, pelo fotógrafo documentarista André François,
finalista do prêmio Empreendedor Social 2006. A organização, que promove
a educação, a cultura e a saúde, entendidas como pilares do
desenvolvimento pessoal e social, é hoje um Ponto de Cultura, parceira
do Ministério da Cultura. Em 1998, começou o programa Escola do Olhar,
já aplicado em mais de 30 escolas públicas, no interior e na capital
paulista. A ação visa implantar laboratórios, ou núcleos fotográficos,
em escolas, ou comunidades. Os alunos, da 7ª série em diante, aprendem,
em oficinas de três meses de duração, a técnica da foto na lata e também
a digital. Para praticar, fazem o mapeamento do bairro. A percepção do
local – da família, da rua, do bairro, da cidade – aumenta a consciência
do mundo em que vivem. No processo, os conteúdos escolares e os das
artes visuais entram em sintonia não só nas áreas de exatas, como física
e química, mas nas de leitura, escrita, história e geografia, que a
atividade de investigar o bairro envolve. No fim, há uma exposição
fotográfica, inteiramente organizada e divulgada pelos alunos. Fora da
escola, a ImageMagica organiza cursos profissionalizantes gratuitos,
dirigidos a jovens de 15 a 19 anos. Aí, a fotografia vira ferramenta de
estímulo ao empreendedorismo.
Minas Gerais, Brumadinho - Arte e Educação no Instituto Inhotim
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Três programas dão conta das relações que o Instituto Inhotim
pretendia, desde sua criação, ver estabelecidas com as escolas. O
carro-chefe, explica a coordenadora das ações, Janaína Mello, é o
projeto Descentralizando o Acesso, voltado à formação do professor. São
dois dias de programa. No primeiro, o professor vai ao museu e checa as
possibilidades que a arte ali reunida proporciona à prática pedagógica
na escola. O educador do museu acompanha a visita, esclarece questões e
dá referências para as necessidades do professor – por exemplo, ensinar
matemática à luz das obras expostas. No segundo dia, o educador do
Instituto vai à escola, completando o processo para o projeto do
professor. As experiências que resultam do programa, reunidas em
publicação do Instituto, são oferecidas para outros professores. Os
alunos destes mestres chegam ao museu, no projeto Escola Integrada, mais
preparados para aproveitar e explorar o ambiente. Neste segundo
programa , em parceria com a prefeitura de Belo Horizonte, o Instituto
recebe 80 estudantes por semana, de ensino fundamental e médio. Eles
passam um dia inteiro no museu, conhecendo o acervo e fazendo atividades
que podem resultar em retorno, de acordo com suas pesquisas. No
terceiro projeto, Laboratório Inhotim, estudantes de escolas urbanas e
rurais do município de Brumadinho têm formação em arte contemporânea
durante um ano. Os alunos criam projetos artísticos a partir de ícones
de suas regiões, como, por exemplo, uma igreja ou uma cachoeira.
Rio de Janeiro, RJ - Projeto Passageiro do Futuro
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Iniciado em 2001, o projeto oferece capacitação técnica em artes
cênicas a estudantes de 16 a 20 anos da rede pública e facilita seu
acesso ao mercado de trabalho. A formação inclui oficinas, ensaio e
montagem teatral e circulação do espetáculo, criado pelos formandos. A
turnê mais recente é a da peça “Forrobodó”, um clássico de Chiquinha
Gonzaga. Nas oficinas (cenário, figurino, maquiagem, iluminação, som,
interpretação, preparação vocal e corporal), associam-se conteúdos
artísticos e disciplinas da escola. Os jovens trabalham coletivamente,
debatendo e elegendo as melhores propostas para cada parte do
espetáculo. Também visitam espaços culturais da cidade, têm aulas de
reforço em português e matemática, acesso a biblioteca e a palestras.
Durante a formação, eles mobilizam a rede família-escola-comunidade,
apresentando esquetes nos bairros. De dois em dois meses, aos domingos,
há encontros com as famílias. Uma assistente social monitora o
rendimento no programa e na escola. “Ela solicita, na escola, os
boletins do ano anterior e acompanha as mudanças. Em geral, há melhora
muito grande em português, história e geografia”, conta Juliana
Teixeira, comandante do Passageiro do Futuro. “Além do acesso ao
conhecimento e ao fazer artístico, o projeto os faz se sentirem capazes,
estimulados para os estudos e o mercado de trabalho”. De 15% a 20% dos
alunos seguem na área profissional, absorvidos em monitoria no próprio
projeto e por empresas parceiras, nas áreas de moda, teatro, TV,
cenário, música.
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Teresina, PI - Música para todos
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Realizado pelo Instituto Cultural Santa Rita, o projeto está
presente em escolas de 16 bairros de Teresina, envolvendo cerca de 1.800
crianças e, em sua sede, 1.200 adolescentes, jovens e adultos em cursos
livres de bateria, percussão, flauta, contrabaixo, teclado, violão
popular e erudito. “Damos ênfase à teoria musical, para que o aluno seja
capaz de ler partituras. Assim, ele pode tocar música em qualquer
lugar”, explica Luís Sá, fundador do projeto. As aulas nos bairros
permitem aos participantes ficarem mais próximos dos pais e da
comunidade. “É comum encontrarmos famílias musicalizadas pelos filhos.
Além disso, os jovens não precisam se deslocar, o que é dispendioso para
os pais, e a atividade se integra à escola”, diz Luís. Os melhores
alunos das escolas na flauta doce passam a aprender violino e viola.
Depois, na sede do projeto, podem avançar no aprendizado e, no futuro,
renovar os quadros das orquestras e bandas sinfônicas e construir uma
carreira musical. “É a nossa batalha e tem sido bem-feita. A maioria de
nossos alunos apresenta melhoria na concentração, no aprendizado
escolar, na expressividade e comunicação com outros alunos, com suas
famílias e pessoas da comunidade. Estamos colecionando depoimentos de
mudança e transformação por meio da música”, diz Luís Sá. Para ele,
“quem aprende música tem mais noção de cidadania, fica mais suscetível
ao dever, pois sabe que tem de tocar no compasso certo, que tem um
conjunto por trás do sucesso.”
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